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11 de agosto de 2009

Artigo de MV Bill publicado no jornal O Globo em 2 de Agosto de 2009


HIP HOP É COMPROMISSO

Semana retrasada fui surpreendido por denúncias irresponsáveis a meu
respeito, numa tentativa de manchar minha imagem. Produziram um
espetáculo aparentemente jornalístico que sugeria ser eu testa de
ferro de empresas supostamente piratas, insinuando que desviei milhões
de reais, quando não tenho sequer a minha própria empresa. E ainda
tentaram induzir as pessoas a pensarem que o livro que escrevi era
bancado por dinheiro público. O que é comprovadamente falso.

O fato de, numa relação comercial privada, eu usar uma mesma produtora
que tem projetos com a Petrobras não permite a ninguém concluir que
exista alguma triangulação, como não existe! Isso inclusive já foi
confirmado pela própria estatal.

Só que miraram num alvo, mas acertaram no próprio pé. O curioso é que,
depois, foi descoberto que a empresa questionada é uma agência da área
artística reconhecida no mercado, tanto que boa parte da respeitável
mídia - inclusive a "denunciante" - recorre a seus serviços. Que
ironia...

Mas para mim o caso não está encerrado, pois o fato de eu não ter
absolutamente nada com essa história, me motiva sim a contribuir para
uma grande reflexão, aproveitando essa tentativa de maldade para
trazer uma discussão de verdade.

Li muitos questionamentos e defesas de artistas sobre suas
dificuldades para se manterem no mercado formal e legal. Li muito
sobre o que hoje é quase um câncer que corrói praticamente todo o
mercado cultural/artístico no Brasil: a necessidade de boa parte dos
artistas e riadores precisarem de empresas que vivem da intermediação
entre o patrocinador e a arte. Li sobre artistas que recorreram a
essas agências culturais para formalizar seus shows que efetivamente
ocorreram.

E para entender melhor esse problema procurei alguns profissionais da
área tributária e, entre outras coisas, pude concluir que não existe
dados sobre o impacto da cultura brasileira no PIB nacional, ou seja,
não existimos formalmente.

Entendi que nós, profissionais autônomos, pagamos sobre o valor do
serviço prestado 11% de INSS, 5% de ISS e ainda Imposto de Renda, de
acordo com tabela. Além disso, todas as essoas jurídicas que nos
contratarem deverão recolher mais 20% sobre o total do cachê para o
INSS, independentemente do valor do serviço, e ainda correr o risco
de haver caracterização de vínculo empregatício.

Entretanto, não é vantagem para nenhum trabalhador permanecer no
mercado informal, não há auxílio doença, aposentadoria, e nem são
garantidos os benefícios dos contratados com carteira: férias,
gratificação de um terço do salário nas férias, descanso remunerado,
décimo terceiro, pagamento de hora extra, FGTS, etc.

Na verdade, um trabalhador informal acaba ficando à margem das
estatísticas e da realidade da classe trabalhadora brasileira,
lembrando que a categoria de trabalhadores de "carteira assinada"
sempre se destacou como minoria. No caso de profissionais ligados à
cultura, essa situação ainda piora quando observamos que, além do
indiscutível excesso de tributos, possuímos algumas características
que, de acordo com as regras do jogo, contribuem ainda mais para
elevar o custo de uma possível contratação, como, por exemplo, o fato
de que a maioria desenvolve suas atividades em horário noturno e aos
finais de semana. Diante dessa realidade, podemos afirmar que, do
ponto de vista financeiro, é praticamente impossível contratar um
profissional da área cultural através de registro em carteira.

Outra característica é que as funções exercidas pelos profissionais
ocorrem em períodos determinados e dificilmente são de ação
continuada, inviabilizando sua contratação nesse formato.

Toda essa instabilidade obviamente intimida a abertura de empresas
próprias, principalmente se pensarmos nas dificuldades para se abrir
uma empresa e mantêla em funcionamento neste país. E olha que nem
estou falando dos artistas iniciantes, que em geral trabalham para
divulgar, não por cachê, mas que estão submetidos às mesmas regras,
incluindo pagamentos de músicos e todos os encargos inerentes à
atividade.

Mas é bom deixar claro que as coisas ditas por mim não são motivos
para burlar a legalidade; pelo contrário, ela precisa ser a nossa
meta, sempre. Tenho nítido que, como cidadão, espero sempre que o
dinheiro público seja bem aplicado, mas não podemos esconder que quem
trabalha no meio artístico acaba meio órfão, sem ter uma
regulamentação própria para seguir, tendo que se adaptar a uma
realidade que não é sua. Portanto, convido todos os que pensam
cultura neste país, em especial os parceiros das secretarias e do
Ministério da Cultura, para juntos levarmos essa discussão adiante,
sem eleger um bode expiatório, mas sim construir uma nova lógica para
a cultura brasileira.

De certa maneira, agradeço o mal que tentaram fazer comigo, pois a
conclusão a que chego é que, ao mesmo tempo em que fiquei indignado
por meu nome ter surgido num rolo que não me diz respeito, sinto muito
orgulho por ser um artista/militante discriminado por sua origem
social, mas que está tendo mais uma vez a coragem e a
responsabilidade de botar o dedo na verdadeira ferida da cultura
brasileira.


MV Bill é cantor de rap, escritor e um dos fundadores da Central
Única de Favelas (Cufa)



Fonte: Jornal O Globo de 02 de agosto de 2009

1 comentários:

Alex disse...

www.mvbill.com eu gosto deste local demasiado.

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