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10 de fevereiro de 2011

Morremos sem Glória

Poxa vida, que semana violenta tivemos! Estive meio mudo, de tão chateado que fiquei com o que tem acontecido, tudo cada vez mais perto. Vi menina sendo alvejada por tiros na porta de casa, vi garota sendo achada morta no colégio em que estudei, colégio em que meus priminhos ainda estudam. Vi atentados e troca de tiros entre torcidas organizadas e, talvez o que mais me deixou chateado, vi um talentoso colega, também rapper, ser morto no bairro em que tempos atrás estávamos fazendo rimas de improviso e jogando conversa fora. Mesmo distantes por conta do tempo e situações, me chocou a notícia de que Antonio Carlos, conhecido pela geral como A.C tinha sido morto. Recebi a notícia e fiquei mudo, sem crer.

Começou cair a ficha quando vi na sua página em um site de relacionamento os comentários de saudade eternas dos amigos e, logo depois, as notícias nos jornais de TV e impresso. Que triste isso! Ver um cara talentoso como o A.C ali deitado no chão, sem qualquer chance. Estranho ler a notícia: "Cantor de rap assassinado", ler as versões óbvias de sempre, ver o A.C no chumbo grosso entre comerciais de varicel, como produto complementar de uma peça publicitária fúnebre. Pensei na mãe dele na hora.
Bom, este texto é minha homenagem à memória de um cara que tinha talento pra fazer disso seu sustento, que era influência para a molecadinha do bairro que queriam rimar e se vestir igual a ele. Um dos poucos artistas locais que me chamava atenção e eu parava pra ouvir as suas poucas músicas. Uma pena essas músicas só terem um pouco mais de atenção por conta da curiosidade das pessoas devido ao seu maior drama pessoal e sacrifício, a própria morte.

Não sei o que rolou, se foi briga (improvável, A.C não costumava cultivar inimigos), se tem droga no meio, ou mesmo polícia. Pra mim não importa e nem pra família e amigos. Todos ficam agora com a saudade, com a dor, com o sentimento de impunidade e violação da própria felicidade engasgados na garganta por toda vida que há de vir. Caramba, ele só tinha 23 anos.

Esse caso rolou no último sábado, mas hoje comecei a pensar um monte de coisas, pensei que precisamos cuidar melhor de nossos jovens, oferecer caminhos para que cresçam, que saiam da invisibilidade em que nasceram, para que vivam da sua arte, vivam a dignidade e o resgate de si mesmos e de suas famílias, para que vivam do seu amor pela comunidade e precisamos apoiá-los de fato, com estrutura e força, pois qualquer arte nesses bairros é feita de modo clandestino e independente, porem é pouco, precisamos salvá-los. |Estamos perdemos nossos talentos, a alegria que eles levam, perdendo nossos artistas para relento gelado, para toda situação que há de mais arriscada em cada esquina.

Vi uma molecada comentando que o A.C morreu igual 2pac, igual o Notorios Big, igual Sabotage. Como se isso fosse glória, o ponto máximo para nós que fazemos rap, que vivemos o Hip Hop. Mas se pararmos pra pensar esse ponto de vista é o mais equivocado, pois ele morreu sem glória, com a mãe ainda pobre, sem ganhar grana com o que fazia de melhor, sem aproveitar uma vida inteira de coisas boas que poderia conquistar. E ainda seu tombo gerou tristeza, aquela sensação de não acreditar misturado com a sensação de "e agora nunca vou saber onde ele poderia chegar". Morremos sem Glória!

Chapa, vai na fé... e até uma outra vida. Fica aqui a homenagem de um cara que torceu por você e agora reza para que tudo fique bem. E pra todos, conheçam um pouco da breve passagem desse maluco pelo hip hop: www.myspace.com/afrochines. Rest in Peace - AC a.k.a AfroChines, para dona Carmem simplesmente Antonio Carlos.

Dyskreto é rapper, ativista cultural e coordenador da Central Única das Favelas de Goiás  (www.twitter.com/Dyskreto)

* Artigo publicado no DM Revista, do jornal Diário da Manhã, edição de quinta-feira, 09 de fevereiro de 2011.

1 comentários:

Fanzine Episódio Cultural disse...

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